Nova Iorque (EUA), 23 de setembro de 2026 – Nesta quarta-feira, o climatologista brasileiro Carlos Nobre, conselheiro da Conservação Internacional (CI-Brasil), recebeu o Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 por Liderança em Ciência e Conservação da Amazônia. Entregue durante a Semana do Clima de Nova Iorque, o reconhecimento celebra sua trajetória dedicada a compreender as relações entre a floresta amazônica e o clima e a buscar caminhos para manter seus ecossistemas funcionais.
Referência mundial nos estudos sobre clima e ecossistemas tropicais, Nobre teve papel central no avanço da compreensão científica sobre os limites de resiliência da Amazônia. Seus estudos ajudaram a demonstrar que a combinação entre desmatamento e mudanças climáticas pode comprometer mecanismos que sustentam a própria floresta, como seu ciclo de chuvas, aproximando o bioma de um ponto de não retorno. As consequências desse processo podem afetar o clima, a produção de alimentos, a geração de energia e a vida de milhões de pessoas.
Durante a premiação, o climatologista reforçou a urgência de ampliar o conjunto de medidas capaz de contribuir com até um terço do esforço necessário para enfrentar a crise climática: “Precisamos implementar imediatamente Soluções Baseadas na Natureza”, afirmou. Em sua fala, o cientista destacou a necessidade de conter o desmatamento e a degradação, ampliar a restauração de paisagens e fortalecer uma sociobioeconomia que valorize a floresta em pé, os rios e os conhecimentos de povos indígenas e comunidades locais.
As pesquisas de Nobre sustentam grande parte da base científica que orienta a atuação da CI-Brasil, incluindo a promoção das SBN para aumentar a resiliência da Amazônia e evitar que o bioma ultrapasse o ponto de não retorno. Um exemplo é o Restaura Amazônia, iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) com financiamento do Fundo Amazônia e de instituições apoiadoras. O projeto prevê restaurar 15 mil hectares em sete estados presentes no Arco do Desmatamento da Amazônia, buscando transformá-lo em um Arco da Restauração. A CI-Brasil é uma das parceiras gestoras da iniciativa e coordena os esforços empregados no Pará e no Maranhão.
Para Sebastian Troëng, CEO da Conservação Internacional, a trajetória de Nobre mostra a capacidade da liderar produzir transformações concretas nos territórios a partir da ciência. “Carlos personifica o que significa liderar pela natureza: ele sempre entendeu que a ciência serve a pessoas reais em lugares reais - um plano para salvar o que não podemos nos dar ao luxo de perder”, afirmou. Segundo Troëng, suas pesquisas mudaram a forma como o mundo compreende as florestas tropicais e ajudaram a evidenciar a urgência da ação conjunta para conservá-las.
Ciência conectada às pessoas e à floresta
Ao longo de sua carreira, Nobre participou da construção de importantes iniciativas de pesquisa e instituições científicas, como o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Atualmente, é cientista sênior e professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e copresidente do Painel Científico para a Amazônia.
Outra dimensão de sua atuação é a busca por modelos de desenvolvimento compatíveis com a conservação da Amazônia. Por meio da iniciativa Amazônia 4.0, Nobre defende o uso da ciência, da tecnologia e da inovação para agregar valor à floresta em pé e ampliar oportunidades econômicas nos territórios amazônicos, incluindo para povos indígenas e comunidades locais.
Nobre também integra a Royal Society e colaborou com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), reconhecido com o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Em 2026, foi ainda nomeado pelo papa Leão XIV para integrar o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, órgão do Vaticano dedicado a temas como direitos humanos, justiça, paz, saúde e emergências humanitárias.
A Amazônia perto do limite
A Amazônia já perdeu entre 17% e 18% de sua cobertura florestal, enquanto estudos indicam que o bioma pode se aproximar de um ponto de não retorno quando essa perda atingir entre 22% e 28%. Somado ao avanço do aquecimento global, esse processo ameaça os ciclos hidrológicos da floresta e a estabilidade climática da América do Sul.
Nesse contexto, ampliar as Soluções Baseadas na Natureza (SBN) é parte central da resposta à crise climática e à crise da biodiversidade: essas abordagens podem contribuir com até um terço das ações necessárias para enfrentar a crise climática, além de fortalecer a adaptação de pessoas e territórios.
A aplicação efetiva das leis ambientais nos países tropicais também teria impacto relevante: poderia evitar mais de 40% do desmatamento ilegal associado à expansão agrícola.
Em escala global, o desafio exige enfrentar simultaneamente a perda das florestas e o uso de combustíveis fósseis, responsáveis juntos pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa. O desmatamento, sozinho, responde por cerca de 11% das emissões globais - mais do que as emissões combinadas das frotas de carros, navios e aviões.
Sobre o Prêmio Thomas E. Lovejoy
O Prêmio Thomas E. Lovejoy homenageia o legado do biólogo que dedicou grande parte de sua trajetória científica à Amazônia e teve papel importante em ampliar a atenção internacional para a biodiversidade e a conservação da floresta.
Criado pela Conservação Internacional, Global Environment Facility (GEF), The Nature Conservancy (TNC), Wildlife Conservation Society (WCS) e World Wildlife Fund (WWF), em parceria com pessoas próximas a Lovejoy, o reconhecimento celebra trajetórias que aproximam ciência, colaboração e ação de líderes comprometidos com a conservação da Amazônia.
