Conservação Internacional promove eventos de conservação de ecossistemas costeiros e marinhos na New York Climate Week

Atuação e iniciativas com envolvimento da CI-Brasil também foram destaques na agenda temática de Oceano do fórum internacional

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September 28, 2026

Nova Iorque (EUA), 28 de setembro de 2026 - O oceano desempenha papel fundamental na regulação do clima, na conservação da biodiversidade e no sustento dos meios de vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Ao mesmo tempo, regiões costeiras estão entre as mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, com enfrentamento a ameaças como erosão, inundações, elevação do nível do mar e eventos climáticos extremos.

Foi nesse contexto que a Conservação Internacional idealizou e participou de discussões, entre diferentes temas e eventos sobre resiliência costeira, conservação de manguezais e infraestrutura baseada na natureza durante a New York Climate Week (NYCW) 2026.

Ao longo da programação de três eventos com organização e/ou participação da CI, especialistas, investidores, setor privado, formuladores de políticas públicas e organizações da sociedade civil debateram caminhos para ampliar a escala de implementação e o escalonamento dessas soluções.

De acordo coordenadora sênior da Comunidade Global de Práticas em Infraestrutura Verde-Cinza da Conservação Internacional, Alice Piva, um dos principais aprendizados da semana foi perceber que a discussão internacional avançou para além da validação dos benefícios das soluções baseadas na natureza e debateu caminhos concretos para torná-las realidade na escala e velocidade necessárias no combate às crises do clima e da biodiversidade.

A questão agora é como ampliar esses projetos e garantir acesso aos recursos financeiros necessários para sua implementação em larga escala. "A gente tem bons projetos para adaptação costeira em vários lugares do mundo. Os próximos esforços se voltam a conseguir escalar isso, e ampliar o financiamento para projetos grandes programas de infraestrutura baseada na natureza que sejam elegíveis para esses fundos de infraestrutura, maiores”, afirmou Alice.

FINANCIAMENTO EM PAUTA

A discussão do financiamento para soluções baseadas na natureza, ainda incipientes quando comparadas à infraestrutura convencional, e caminhos para torná-las mais atrativas para financiadores e investidores foi a pauta da mesa redonda “Unlocking Investment in Nature-Based Solutions for Coastal Infrastructure and Climate Resilient Port”, organizada pela CI em parceria a International Coalition for Sustainable Infrastructure (ICSI) e com o Ambition Loop, com quem a Conservação Internacional contribui com o Mangrove Breakthrough.

O evento reuniu representantes de infraestrutura, engenharia, setor portuário, financiadores, formuladores de políticas públicas e organizações da sociedade civil para discutir como ampliar o financiamento de soluções baseadas na natureza para infraestrutura costeira e portos resilientes ao clima.

Um dos pontos debatidos foi também a própria vulnerabilidade dos investimentos aos riscos climáticos, o que demonstra a importância da resiliência e redução de riscos de desastres como condição necessária para a agenda de descarbonização e que para os investimentos sejam viáveis, especialmente nos países do Sul Global, onde essa percepção de risco já representa uma das principais barreiras para a atração de capital.

A temática de investimentos em resiliência também foi pauta CI também promoveu um evento no “Nature Hub” denominado “Investing in coastal resilience and Nature-Based Infrastructure”, que debateu caminhos para escalonamento de iniciativas voltadas à restauração de manguezais, recuperação de ecossistemas marinhos, fortalecimento da pesca sustentável e implementação de infraestrutura verde-cinza como soluções baseadas na natureza que já vêm contribuindo para proteger pessoas, meios de vida e ecossistemas com a redução de riscos associados a tempestades, inundações e elevação do nível do mar.

Além disso, esses ecossistemas também têm papel fundamental na captura e armazenamento de carbono, o que tornam essas soluções capazes de gerar, simultaneamente, benefícios de adaptação e mitigação climática.

Durante o painel, especialistas discutiram os desafios e oportunidades para ampliar a escala dessas iniciativas, mobilizar financiamento direto para comunidades tradicionais e povos indígenas que atuam na linha de frente da conservação costeira e integrar soluções baseadas na natureza ao planejamento de novos investimentos em infraestrutura marinha, incluindo projetos de energia eólica offshore. O debate reforçou a necessidade de reconhecer o valor econômico e climático dos ecossistemas costeiros e criar mecanismos capazes de direcionar mais recursos para soluções que já demonstram resultados concretos em diferentes regiões do mundo.

Um dos destaques de iniciativas passíveis de financiamento e escalonamento trazidos por Rod Braun, Diretor Sênior do departamento de Adaptação Climática e Oceânica da Conservação Internacional, são as soluções de infraestrutura verde-cinza (IVC), uma abordagem que combina técnicas como replantio e reflorestamento junto da engenharia convencional, como a construção de pontes e canais, para promover estruturas resilientes ao clima.

No Brasil, a CI-Brasil lançou recentemente o estudo "Infraestrutura verde-cinza na Amazônia costeira: Adaptação e Soluções Baseadas na Natureza para uma nova geração de infraestrutura resiliente ao clima no Brasil", que sintetiza os resultados de pesquisas aplicadas desenvolvidas entre 2024 e 2026 na costa dos estados do Pará e do Amapá. Como parte da metodologia, a rodovia PA-458, uma estrada conecta a sede do município de Bragança à Vila de Ajuruteua e atravessa uma área com cobertura superior a 90% de florestas de manguezal, foi selecionada para a implementação das intervenções.

A pesquisa revela que as intervenções de IVC ao longo de oito quilômetros da PA-458 permitirão recuperar diretamente 363,28 hectares de manguezais, restabelecer a circulação natural das marés e remover mais de 106 mil toneladas de CO₂ até 2050 apenas na área diretamente impactada. A implementação de IVC pode beneficiar cerca de 123 mil pessoas que dependem da estrada para se locomover, ao passo que atualmente, em períodos de maré alta, trechos são bloqueados devido a alagamentos promovendo isolamento e insegurança no trânsito.

Considerando zonas adjacentes degradadas por turismo desordenado, queimadas e ocupação urbana, o potencial total de remoção supera 409 mil toneladas de CO₂, o que reforça o papel da Amazônia costeira como um dos maiores reservatórios de carbono azul do planeta.

Além dos benefícios climáticos, as soluções híbridas podem gerar até 30% de economia nos custos de manutenção da estrada, ampliar sua vida útil e fortalecer a mobilidade e a segurança das comunidades que dependem da via para acessar mercados, escolas, serviços e atividades de subsistência, como a pesca artesanal e a coleta de caranguejos.

PROMANGUEZAL COMO EXEMPLO

Um dos destaques levados à NYCW por diferentes especialistas foi o Programa Nacional de Conservação e o Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal), lançado em 2024 e cuja construção contou com apoio da CI-Brasil. A iniciativa é considerada um marco nas políticas públicas de conservação ambiental no Brasil ao reconhecer os manguezais como ecossistemas-chave para a biodiversidade e o clima.

Durante o evento na Nature Hub promovido pela CI “One Ocean, One Climate”, que reuniu lideranças envolvidas nos processos da COP30 e da COP31 para discutir o papel dos oceanos na agenda climática global, o ProManguezal foi apresentado como referência de política pública em prol da adaptação climática de ecossistemas costeiros e marinhos.

Segundo Alice, além de fortalecer a conservação dos manguezais brasileiros, o ProManguezal é visto como um mecanismo capaz de ampliar a mobilização de recursos voltados à proteção desses ecossistemas, contribuindo para reduzir riscos climáticos, fortalecer a resiliência de comunidades costeiras e conectar políticas públicas de conservação a oportunidades de financiamento em maior escala.

"É um caso de política pública que tem potencial de desbloquear muito investimento para esse tipo de solução e realmente levar o negócio para a próxima escala", comentou Alice Piva.

Por fim, a especialista avalia os debates da NYCW maduros no entendimento de que a natureza é infraestrutura pública e eficiente para adaptação climática dentro de áreas costeiras e de cidades. "Sabemos também que tem retorno de investimento enorme, mas entendemos que ainda temos uma carência grande de projetos implementados para termos dados e métricas para a implementação dessas soluções em escalas. O fato de a CI-Brasil também estar liderando muitas ações do tipo acaba tornando a organização uma referência no assunto", disse.

Para Natali Piccolo, diretora do Programa Marinho e Costeiro da CI-Brasil, a atuação do país e da organização na temática é relevante para demonstração de iniciativas e estudos já existentes na temática. “Nossa atuação junto à conservação de ecossistemas marinhos e costeiros no Brasil pode servir de referência também para o escalonamento de soluções baseadas na natureza a nível global baseado na melhor ciência disponível para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, afirmou.