Santarém (PA), 24 de agosto de 2026 – Na região do Tapajós, restaurar áreas degradadas também significou produzir alimentos e gerar renda para famílias agricultoras. Uma iniciativa realizada com apoio da Conservação Internacional (CI-Brasil), financiamento da General Motors (GM) e execução do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) em parceria com organizações locais, apoiou a implantação e o manejo de Sistemas Agroflorestais (SAFs), a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), a assistência técnica às famílias e a estruturação da Rede de Sementes e Mudas do Tapajós.
Ao todo, foram apoiados 7,5 hectares em processo de restauração e monitoramento, realizadas por 20 famílias agricultoras e uma área coletiva da Casa Familiar Rural de Belterra. Em 1,5 hectare, o trabalho focou na recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs). Nos outros 6 hectares, a aposta foi nos Sistemas Agroflorestais (SAFs), que combinam árvores nativas, espécies frutíferas e culturas agrícolas em uma mesma paisagem produtiva.
A iniciativa implantou mais de 2 mil mudas de espécies frutíferas e florestais e realizou 68 visitas de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), com orientações voltadas ao plantio, replantio, manejo, irrigação e consolidação dos sistemas produtivos. Mesmo ainda em fase de consolidação, alguns sistemas agroflorestais já começaram a gerar produção para consumo das famílias e comercialização.
Entre os exemplos sistematizados pelo IPAM estão a venda de 400 quilos de polpa de acerola, que gerou R$ 4,8 mil para uma família agricultora, e a comercialização de 230 quilos de colorau de urucum para mercados institucionais, com receita de R$ 10,3 mil. No mesmo sentido, três viveiros locais apoiados pela iniciativa produziram mudas utilizadas nas ações de replantio e também comercializadas para outras iniciativas, gerando R$ 218 mil em receita bruta.
As ações foram realizadas em parceria com a Associação dos Agricultores Familiares da Batata (ASAFAB), a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Belterra (AMABELA), a Associação dos Moradores do Areia (AMA) e a Casa Familiar Rural de Belterra (CFR Belterra). Rosângela Silva, agricultora e presidenta da ASAFAB, destacou a importância da iniciativa para o território: “Além da gente ter uma área que vai enriquecer a nosso solo, a gente também vai ter uma renda. As famílias vão ser mais beneficiadas.”
Com foco na valorização de mulheres, jovens e famílias agricultoras, o trabalho buscou diversificar a produção, melhorar o solo, gerar renda e fortalecer a resiliência socioambiental das comunidades locais. “Mais do que recuperar áreas degradadas, a iniciativa busca criar condições para que novas gerações continuem vivendo no campo”, reforça Mayara Ferreira, gerente de Povos Indígenas da CI-Brasil. “Esse trabalho também reconhece o protagonismo das mulheres agricultoras, que têm papel essencial na gestão dos sistemas produtivos e na construção de paisagens mais sustentáveis”, complementa.
Restauração e assistência a partir da realidade das famílias
Nas áreas participantes, os planos de restauração foram definidos a partir do diálogo com as famílias e das condições de cada propriedade. Ao todo, foram finalizados 25 planos de restauro, conforme a disponibilidade de mudas, apoiando a organização das etapas de plantio, replantio, monitoramento e assistência técnica.
No período final do projeto, as ações também incluíram o replantio de mudas perdidas em função da seca extrema e a instalação de sistemas de irrigação em áreas prioritárias, como forma de aumentar a resiliência dos SAFs diante dos impactos climáticos. Além das mudas, foram entregues materiais de irrigação e realizadas orientações práticas para apoiar o manejo das áreas no período mais seco.
A assistência técnica foi uma das principais frentes da iniciativa. “O projeto foi um convite: vamos fazer parte da solução? Vamos olhar para a semente, para a muda, para a floresta, mas, sobretudo, vamos olhar para nossos agricultores. Eles nos alimentam, as mãos que alimentam o mundo. Elas são muito poderosas”, relembra Alcilene Cardoso, coordenadora regional do IPAM.
As visitas de ATER realizadas junto às famílias incluíram orientações sobre plantio, replantio, manejo, sombreamento, cobertura do solo, poda, adubação, enriquecimento dos sistemas e implantação de materiais de irrigação. O acompanhamento presencial foi complementado por orientações em grupos digitais, permitindo a troca contínua de informações entre equipe técnica e famílias agricultoras. Esse processo apoiou a consolidação das áreas já implantadas, a reposição de mudas e a adaptação dos sistemas produtivos às condições de cada propriedade.
Fortalecendo a cadeia local da restauração
A iniciativa também buscou fortalecer e capacitar a cadeia produtiva da restauração.
Além do suporte aos viveiros locais, o projeto apoiou a estruturação da Rede de Sementes e Mudas do Tapajós, que reúne viveiristas, coletores de sementes, organizações comunitárias, instituições públicas e parceiros técnicos. A rede conta com 15 viveiros articulados na região e uma rede de coletores de sementes, com capacidade produtiva estimada em cerca de 500 mil mudas por ano.
Em parceria com as organizações envolvidas na iniciativa, a Rede avançou na elaboração de seu plano operacional, com diretrizes para organizar demandas, espécies prioritárias, calendário, protocolos de manejo e oportunidades de comercialização. A proposta foi ampliar a oferta de mudas e sementes nativas, fortalecer a cooperação entre diferentes atores e organizar a cadeia da restauração no território.
Ao longo do projeto, um workshop e duas oficinas apoiaram a formação de diferentes atores envolvidos com a restauração, reunindo produtores, produtoras, estudantes, viveiristas, técnicos e representantes de instituições parceiras. O workshop da Rede também reuniu 44 participantes, fortalecendo a articulação entre diferentes atores do território e combinando teoria, prática e troca de experiências. Ao todo, 65 agricultoras e agricultores foram capacitadas na produção de sementes e mudas, sendo 37 mulheres, reforçando o protagonismo feminino na cadeia da restauração.
“Além de ter feito essa restauração do solo, a restauração dos SAFs, teve a restauração espiritual das mulheres também, né? O empoderamento”, destaca Selma Ferreira, agricultora e coordenadora da AMABELA.
Na Casa Familiar Rural de Belterra, o projeto também apoiou a estruturação de uma unidade demonstrativa de Sistemas Agroflorestais. O espaço funciona como área de aprendizagem prática para estudantes dos cursos técnicos da instituição, conectando formação, produção sustentável e restauração. A CFR Belterra passou a integrar a Rede de Sementes e Mudas do Tapajós como um dos viveiros articulados da região, ampliando seu papel na formação de jovens e na produção de mudas para restauração.
