Rio de Janeiro (RJ), 2 de outubro de 2026 — Após décadas de perdas, a cobertura global de florestas de mangue apresenta sinais de recuperação, embora manguezais antigos continuem ameaçados pela degradação e pelas atividades humanas. É o que revela a quarta edição do relatório Estado dos Manguezais do Mundo 2026 (The State of the World's Mangroves 2026), publicada pela Aliança Global de Manguezais (Global Mangrove Alliance – GMA). A publicação reúne as evidências científicas mais recentes sobre esses ecossistemas e experiências de conservação e restauração, com contribuições de mais de 190 parceiros de mais de 30 países, incluindo a Conservação Internacional (CI-Brasil).
Um dos principais destaques da publicação é a atualização do Global Mangrove Watch, plataforma internacional de monitoramento que apresenta novos dados sobre a cobertura dos manguezais entre 1985 e 2025. As análises mostram que as perdas diminuíram gradualmente ao longo das últimas quatro décadas e que, há cerca de dez anos, a tendência global passou a indicar ganhos líquidos de cobertura.
Entretanto, os resultados exigem cautela. Cerca de 65% dos ganhos de cobertura ocorreram em áreas onde anteriormente não havia manguezais. Embora representem uma expansão desses ecossistemas, os novos manguezais não compensam integralmente a perda dos antigos, cuja biodiversidade, capacidade de armazenamento de carbono e contribuição para a proteção costeira dependem de décadas de desenvolvimento.
“Os resultados mostram que é possível reverter parte das perdas de manguezais, mas também reforçam que conservar as existentes deve continuar sendo uma prioridade. Esses ecossistemas são fundamentais para o enfrentamento das mudanças climáticas, a proteção da costa e o sustento de milhares de famílias. Precisamos transformar os avanços científicos em ações concretas de conservação e restauração, fortalecendo as políticas públicas e as comunidades que vivem nesses territórios”, destaca Renan Alves, gerente de Carbono Azul da CI-Brasil.
O relatório também revisita as metas globais para 2030, que incluem interromper as perdas de manguezais causadas diretamente por atividades humanas, ampliar sua proteção e restaurar metade das áreas recentemente perdidas e consideradas recuperáveis. A publicação destaca que alcançar esses compromissos depende da combinação entre ciência, financiamento, políticas públicas e participação das comunidades locais.
Acesse o relatório completo Estado dos Manguezais do Mundo 2026 em inglês e conheça os principais resultados da publicação.
Contribuição brasileira
A CI-Brasil lidera o desenvolvimento da Aliança no nordeste do Brasil, articulando organizações da sociedade civil, instituições científicas, órgãos públicos e representantes de comunidades para fortalecer a conservação, a restauração e o uso sustentável dos manguezais. Organizada em cinco grupos de trabalho, a rede promove a troca de conhecimentos e experiências, identifica desafios e oportunidades e conecta iniciativas regionais às agendas nacionais e internacionais de clima e biodiversidade, incluindo o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal). Além de instucionalizar uma rede regional no Nordeste, a aliança vem apoiando a implementação do ProManguezal, por meio da elaboração de um dashboard que seja capaz de monitorar as ações e as atividades da política.
No nordeste brasileiro, os manguezais estão diretamente associados aos modos de vida de pescadores artesanais, marisqueiras e outras comunidades tradicionais, que dependem desses ambientes para sua segurança alimentar, geração de renda e manutenção de práticas culturais. Ao aproximar ciência, conhecimentos locais e políticas públicas, a iniciativa busca ampliar os benefícios da conservação para a biodiversidade e as populações costeiras.
Essa abordagem está entre os principais eixos do relatório, que apresenta experiências de restauração lideradas por comunidades em países como Brasil, Gana, México, Catar, Tanzânia e Filipinas. "Ao reunir dados atualizados e experiências de diferentes regiões, a publicação oferece subsídios para ampliar a conservação desses ecossistemas e os benefícios que proporcionam ao clima, à biodiversidade e às populações costeiras", complementa Renan.
Aliança Global de Manguezais
Com aproximadamente 15 milhões de hectares em todo o planeta, os manguezais desempenham funções essenciais para a biodiversidade, o clima e o bem-estar das populações costeiras. Além de armazenar grandes quantidades de carbono, contribuem para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos, proteger as regiões costeiras e manter habitats fundamentais para a reprodução de peixes, crustáceos e outras espécies, sustentando atividades econômicas e modos de vida de comunidades locais.
Considerando toda essa importância, a Aliança Global de Manguezais (GMA) foi criada como uma rede internacional que reúne organizações da sociedade civil, instituições científicas, governos, empresas e comunidades locais para promover a conservação e a restauração dos manguezais em escala global.
Com mais de 100 organizações integrantes, a Aliança tem entre suas lideranças globais a Conservação Internacional, The Nature Conservancy (TNC), a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), a Wetlands International e o WWF. Sua atuação busca conectar iniciativas locais às agendas internacionais de clima e biodiversidade, promovendo intercâmbio de conhecimentos, fortalecimento de capacidades, acesso a financiamento e colaboração entre diferentes setores.
A rede trabalha em torno de três objetivos para 2030: interromper as perdas de manguezais causadas diretamente por atividades humanas, restaurar metade das áreas recentemente perdidas e ampliar a proteção desses ecossistemas. Para avançar nessas metas, reúne conhecimentos científicos, ferramentas de monitoramento e experiências de campo, estimulando soluções adaptadas às características e necessidades de cada território.
