No jantar latino realizado durante o Organic Festival Trancoso, em Trancoso (BA), um dos pratos servidos no restaurante Almar Trancoso conectou a gastronomia do evento ao trabalho sustentável inovador de comunidades pesqueiras locais. O ceviche preparado pelo chef convidado Jaime Rodríguez, do restaurante Celele de Cartegena (Colômbia), levava algas da região.
Angie Murgierm, turista argentina que participa do festival pela terceira vez, celebrou a experiência: “Quando eu visito um lugar como turista, eu sou muito consciente de onde passo o tempo e com quem eu estou. Além do prato ser absurdamente delicioso, faz muito sentido saber de onde vem, quem trabalha e como são escolhidos os ingredientes da receita. Fecha um ciclo”, contou.
O ciclo citado pela turista começa nas águas de Cumuruxatiba, no Extremo Sul da Bahia, uma paisagem onde famílias de pescadores artesanais vivem do oceano há gerações e conhecem de perto tanto sua riqueza quanto os desafios de mantê-lo saudável e próspero. Esse trecho da Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Corumbau guarda uma história de produção em harmonia com o mar baiano muito maior do que as próprias algas.

Navegando novos mares
Filho de pescadores, nascido e criado nas praias da RESEX Marinha do Corumbau, Rodrigo carrega o mar até no sobrenome: Marinho. Como é de costume, seguiu a profissão da família e desde cedo aprendeu as práticas da pesca artesanal. “O mar para mim é vida. Nós respiramos graças a ele. Eu não consigo me enxergar sem o mar. Ele é o nosso sangue.”
O que Rodrigo não sabia é que, mesmo para uma comunidade tão conectada com o oceano, ele ainda guarda segredos. A surpresa veio em forma de uma nova alternativa de renda: o cultivo de algas.
Foi uma surpresa porque a gente passava por essas algas e para a gente não era nada. Quando nos foi apresentado os nutrientes que existem nas algas, o que se pode fazer com elas, foi fantástico. A extração do ágar-ágar, nunca passou pela minha cabeça, que um pescador na reserva conseguiria fazer. Isso é muito legal.
Durante muito tempo, as algas estavam ali sem que suas potencialidades fossem percebidas por quem passava por elas todos os dias. O contato com novos conhecimentos sobre suas propriedades nutricionais, usos e possibilidades de processamento ajudou a mudar essa percepção.
Esse potencial foi apresentado à comunidade pelo Projeto Algas de Cumuru, experiência de cultivo de algas nativas dos tipos Gracilaria s.p. e Hypnea Pseudomusciformis desenvolvida pela Conservação Internacional (CI-Brasil) em parceria com Universidade Estadual Paulista (UNESP) e financiamento do Instituto BKK. O projeto passou a investigar como algo que já fazia parte daquele ecossistema também poderia representar novas possibilidades de alimento, renda e conservação.
Fortalecendo o maretório
Quando uma família que tradicionalmente depende da pesca passa a cultivar algas, uma nova possibilidade entra na relação entre pessoas e oceano. A atividade não substitui a pesca artesanal nem os conhecimentos construídos ao longo de gerações, mas amplia as alternativas disponíveis para quem vive no maretório - território das águas e das marés.
As algas são fartas na região e o uso delas na alimentação vem aumentando em todo o mundo. O ágar-ágar - substância extraída das plantas marinhas - é usado na produção de biofertilizante, bioplástico e pela indústria farmacêutica.A iniciativa é uma forma de fortalecer comunidades pesqueiras e fomentar o desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental local.
“A pesca está muito cansada. Algumas espécies de peixe estão sumindo da nossa região em razão da pesca predatória. Espécies que a gente pegava com muita facilidade hoje não conseguimos mais. Esse cultivo é uma forma sustentável de conseguir uma renda a mais e dar uma folga na pesca artesanal”, relata Marinho.

Rodrigo Marinho, pescador participante do projeto
Além do apoio científico fornecido ao cultivo, o projeto também fortaleceu a Associação de Pescadores de Cumuruxatiba (APEC) através de ações como oficinas de associativismo, capacitações para elaboração de projetos socioambientais e a construção de um roteiro de boas práticas para algicultura. “Hoje as famílias estão amando o projeto e temos a expectativa de aumentar o cultivo para outras comunidades. É uma forma de agregar uma fonte de renda a mais para os pescadores”, conta Rodrigo.
Seguindo a maré
Depois dos resultados alcançados em Cumuruxatiba, a experiência entra agora em uma nova etapa.
Com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a iniciativa vai ampliar o cultivo junto às comunidades pesqueiras da região, com foco em inclusão de gênero. A meta é envolver diretamente 15 famílias de pescadoras artesanais, diversificando suas fontes de renda e reduzindo a dependência exclusiva da pesca. Com isso, espera-se reduzir os dias de pesca das famílias participantes, contribuindo para diminuir a pressão sobre espécies e ambientes marinhos.
Cada alga cultivada nesse percurso conecta duas necessidades que muitas vezes são tratadas separadamente: manter o oceano saudável e gerar oportunidades para quem depende dele. É uma Solução Baseada na Natureza que nasce das características do próprio território e combina conhecimento local, ciência, produção sustentável e conservação diante da crise climática e da crise da biodiversidade.

Uma das algas cultivas na iniciativa
Do mar ao prato
Para que cultivar algas se consolide cada vez mais no território, é preciso que exista quem compre, experimente e alimente essa história. É nesse ponto que o caminho da alga encontra a gastronomia.

Prato servido no festival
Durante o Organic Festival Trancoso, aquilo que começou no mar de Cumuruxatiba se transforma mais uma vez. Muda a textura. Muda a apresentação. Ganham espaço novos sabores. É um novo capítulo daquela alga que carrega a história de resiliência das comunidades pesqueiras. De aprendizado do pescador sobre seu uso. Da família que busca diversificar sua renda. Do conhecimento científico associado ao tradicional. Do ecossistema marinho do qual tudo isso depende e que queremos manter para as próximas gerações.
Um ingrediente pode ser uma porta de entrada para conhecer de onde vem um alimento, quem o produz e quais relações mantém com a natureza. No festival, a história de Corumbau encontra pessoas que talvez nunca tenham conhecido uma família de pescadores artesanais.
O prato encurta essa distância: é um encontro entre comunidades e ecossistemas através da gastronomia, mostrando que aquilo que escolhemos de alimentação também pode nos aproximar das pessoas e dos territórios que cuidam do oceano.
Ampliando horizontes
Ao experimentar a alga, os participantes fortalecem uma iniciativa que busca construir novas formas de viver do, com e para o mar.
Colocar esse ingrediente diante de chefs, empreendedores, parceiros e novos públicos dá visibilidade a uma cadeia que está sendo construída. Faz circular não apenas um produto, mas uma ideia: é possível criar formas de gerar renda a partir de um oceano conservado, mantendo quem vive do maretório no centro desse processo.
Esse é também um dos papéis da Casa Conservação Internacional no Organic Festival Trancoso: aproximar iniciativas regenerativas existentes no Extremo Sul da Bahia de pessoas e organizações capazes de fortalecê-las.
O Organic passou a ser um irrenunciável na minha agenda do ano. Além dos temas importantes e úteis para o consumidor abordados nos debates, sobre pesca sustentável, gastronomia e o papel dos empresários e dos chefs, sinto que é um lindo chamado a refletir. É uma inspiração para que cada um de nós pensemos, do nosso lugar, o que podemos fazer melhor.
A alga que chegou ao prato percorreu um caminho relativamente curto no mapa. Mas, nesse percurso, conectou mar e mesa, pescadores e chefs, conhecimento tradicional e ciência, conservação e geração de renda.
E talvez seja justamente por isso que ela carregue uma história muito maior do que seu tamanho.
