Capacitações fortalecem cadeia da restauração no Pará e preparam estado para meta de 5,6 milhões de hectares

Oficinas realizadas nas regiões do Tapajós e no Centro de Endemismo Belém capacitam viveiristas, coletores de sementes e técnicos rurais para aperfeiçoar a produção de mudas e sementes, gerar mão de obra qualificada e acelerar a restauração na Amazônia.

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Participantes do Treinamento para Viveiristas e Coletores de Sementes Nativas ocorrido em Santarém (PA).

February 28, 2026

Belém (PA), 28 de fevereiro de 2026 — Entre janeiro e fevereiro de 2026, a Conservação Internacional (CI-Brasil) promoveu, em parceria com a Silva Soluções Ambientais e a Embira Ambiental, uma série de capacitações estratégicas para fortalecer a cadeia da restauração no Pará. Os treinamentos ocorreram na região da bacia do Tapajós e no Centro de Endemismo Belém (CEB), dois territórios prioritários para a conservação na Amazônia por concentrarem alta diversidade biológica, pressão sobre a vegetação nativa e grande potencial de restauração em larga escala.

Foram realizadas duas formações direcionadas a viveiristas, coletores de sementes nativas, agricultores e assistentes técnicos de extensão rural - profissionais que sustentam a base produtiva e técnica da restauração de paisagens.

O Treinamento para Viveiristas e Coletores de Sementes Nativas, ocorrido na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em Santarém, e no Sindicato de Produtores Rurais de Tomé-Açu, abordou boas práticas para aumento da qualidade das sementes e mudas produzidas, precificação, viabilidade econômica e formalização no Registro Nacional de Sementes e Mudas (RENASEM).

Entre as participantes esteve Maria Adriana Evangelista Moraes, agricultora familiar de Tomé-Açú que já atuava com coleta de sementes e produção de mudas, mas encontrou na capacitação novas ferramentas para qualificar seu trabalho. “Muitas vezes a gente pegava nossas sementes, mudas e frutas e fazia de qualquer jeito. Na capacitação, tivemos a oportunidade de aprender com profissionais como trabalhar melhor nos viveiros e na coleta das sementes. Assim, a agricultura familiar vai se renovando e, quando a agricultura se renova, todo o nosso povo ganha, porque levamos alimentação saudável para as mesas do campo e da cidade. Só tenho a agradecer por esse curso e por todos que se preocuparam em nos qualificar”, afirmou.

Já o Treinamento para Extensionistas e Técnicos Rurais, realizado na Casa Familiar Rural de Belterra e na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) de Paragominas, fortaleceu profissionais, técnicos e agentes que atuam diretamente com proprietários rurais na regularização de passivos ambientais e no desenho de projetos de restauração ecológica e produtiva. Foram trabalhadas técnicas com espécies nativas, aplicação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) e ferramentas para apoiar a estruturação de projetos, incluindo planejamento, custos e cronogramas.

Katiane Lourido, representante da associação Alter do Chão Centro de Reflorestamento e Agrofloresta Amazônia (ACRAA), destacou como as capacitações contribuíram para estruturar melhor o trabalho desenvolvido pela organização. “Hoje temos um pequeno viveiro e ainda não trabalhamos com produção de mudas para comercialização, apenas com espécies nativas para plantio comunitário. Nos cursos, aprendi sobre planejamento, identificação, estruturação e formalização da coleta de sementes, além de como organizar melhor os projetos que já realizamos, calcular custos e o tempo de execução. Isso vai nos ajudar a fortalecer tanto a equipe quanto a comunidade que participa das ações de plantio e educação ambiental”, explicou.

Para Viviane Figueiredo, gerente de projetos da Amazônia da CI-Brasil, as formações fortalecem a base técnica e produtiva necessária para que o Pará avance na meta de restaurar 5,6 milhões de hectares até 2030 - quase metade da meta nacional prevista no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). “Ao capacitar viveiristas, coletores de sementes e técnicos de extensão rural, estamos apoiando a estrutura da cadeia da restauração no território. Isso significa melhorar a qualidade das mudas e sementes, apoiar a formalização dos produtores e ampliar a capacidade técnica para desenhar projetos consistentes. É assim que criamos as condições para que o estado alcance sua meta e contribua para os compromissos nacionais de restauração”, destaca a especialista.

Ao todo, as formações reuniram 114 participantes, consolidando uma das maiores agendas recentes de capacitação voltadas à restauração no Pará, fortalecendo a base necessária para responder à crescente demanda por insumos e assistência técnica no estado.

Aprendizado em campo

A programação também incluiu visitas técnicas nos dois territórios estratégicos, conectando teoria e prática.

Na região do Tapajós (Santarém e Belterra), os viveiristas visitaram o Viveiro Ardosa, de Sidcley e Adna Mattos, onde puderam conhecer a organização produtiva e os desafios da comercialização de mudas nativas. Os extensionistas participaram de visita técnica à Embrapa Belterra, aprofundando o diálogo sobre silvicultura de espécies nativas e experimentos aplicáveis à restauração.

Em Tomé-Açu e Paragominas, municípios do CEB, os viveiristas conheceram um viveiro que é referência regional na produção de mudas. Já os extensionistas visitaram o SAF com cacau de Rui Randolf Neto, parceiro da UFRA de Paragominas, observando como a restauração produtiva pode conciliar regularização ambiental, geração de renda e diversificação econômica.

As visitas fortaleceram redes locais de cooperação e evidenciaram que a restauração em escala depende de articulação territorial e troca de experiências.

Restauração e equidade de gênero no território

As capacitações contaram com participação equilibrada entre homens e mulheres, com aproximadamente 47% de presença feminina. A expressiva presença de mulheres evidencia o protagonismo crescente feminino na cadeia da restauração no Pará.

Da coleta de sementes à gestão de viveiros e à assistência técnica, as mulheres vêm ocupando funções estratégicas na organização produtiva e na articulação comunitária. Ao fortalecer capacidades técnicas, acesso à informação e processos de formalização, a restauração de paisagens também se consolida como uma agenda de equidade de gênero - ampliando autonomia econômica, reconhecimento social e participação nas decisões sobre o uso do território.

Integrar mulheres à cadeia da restauração amplia a escala, a qualidade e a permanência das ações, fortalecendo essa Solução Baseada na Natureza (SBN) como resposta estruturante aos principais desafios socioambientais contemporâneos.

Estruturando a cadeia da restauração no Pará

As capacitações integram um projeto mais amplo implementado pela CI-Brasil em parceria com uma coalizão de organizações, atores locais, empresas e governos para estruturar a cadeia produtiva da restauração no estado. A iniciativa atua no mapeamento e conexão entre oferta e demanda por sementes e mudas nativas, no fortalecimento da infraestrutura de viveiros e redes de coletores, na criação de polos regionais e na mobilização de financiamento privado.

O projeto pretende capacitar 160 viveiristas, coletores de sementes e técnicos de extensão rural, beneficiando até 2,4 mil agricultores familiares de forma indireta. Também busca fortalecer ou implantar pelo menos quatro viveiros comerciais autossustentáveis, mobilizar ao menos US$ 5 milhões em financiamento privado e ampliar a capacidade anual de produção do estado em até 4 milhões de mudas de alta qualidade.

Ao estruturar a base produtiva, a iniciativa busca fomentar a restauração de paisagens na Amazônia, contribuindo para a mitigação e adaptação climática a partir do desenvolvimento sustentável baseado na floresta em pé.