Belém (PA), 12 de novembro de 2025 — O Pavilhão Belém+10 da Zona Verde, na COP 30, recebeu, nesta quarta-feira (12), o workshop “Sociobioeconomia e o Futuro da Bioeconomia Global”, que reuniu representantes do Brasil, África, Indonésia, Equador para discutir caminhos comuns na construção de uma bioeconomia inclusiva e baseada em direitos. A atividade integra o BioeconomyChallenge, iniciativa internacional que traduz os princípios da bioeconomia do G20 em ações territoriais concretas.
Organizado pelo WRI Brasil e pela Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Conservação Internacional (CI-Brasil) por meio do projeto Paisagens Sustentáveis da Amazônia (ASL Brasil), o encontro destacou a sociobioeconomia como pilar central de uma agenda global que conecta comunidades locais, valorização da natureza e governança climática.
“Quando colocamos na mesma mesa, perspectivas tão diversas sobre bioeconomia, vindas diretamente dos territórios, enxergamos com mais precisão o que deve orientar esse debate. Um movimento como o BioeconomyChallenge só se sustenta com essa escuta atenta e a troca de experiências, que devem guiar uma coordenação global para alavancarmos a bioeconomia de forma justa, eficaz e conectada às urgências dos territórios, principais detentores das soluções para as crises do clima e da biodiversidade", avaliou Laura Lamonica, diretora de Soluções para o Clima da Conservação Internacional (CI-Brasil).
Para Carlos Eduardo Marinelli, chefe de gabinete e secretário substituto da Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais (SBIO/MMA), é preciso transformar ideias em resultados no território.
“Mais do que planejar, nosso desafio, agora, é fazer as políticas acontecerem no território - unindo cooperação internacional, sociobioeconomia e metas como as das Convenções do Rio para entregar resultados concretos”, disse Marinelli, citando o Pacto pela Sinergia entre as Convenções do Rio, Plano de Aceleração de Soluções para o Clima, apresentado pelo MMA na zona azul da COP30. O Pacto busca garantir que ao menos 30% das metas das três convenções - Biodiversidade, Desertificação e Clima - sejam alcançadas por meio de ações integradas.
"O BioeconomyChallenge e seu pilar de Sociobioeconomia tem a oportunidade de colocar as pessoas e as comunidades no centro dos avanços da bioeconomia. Para isso, precisamos impulsionar métricas, financiamento e desenvolvimento de mercados para a sociobioeconomia dos vários territórios ao redor do mundo”, avaliou Joana Oliveira, moderadora do painel e secretária executiva da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia.
Intercâmbio como motor da transformação
O painel apresentou uma leitura plural sobre os desafios e potencialidades da sociobioeconomia, mostrando como diferentes regiões enfrentam problemas semelhantes - pobreza, insegurança fundiária e pressão sobre ecossistemas - e compartilham soluções que nascem das comunidades.
A indonésia MeizaniI rmadhiany, como vice-presidente sênior e presidente executiva da Konservasi Indonesia, enfatizou o poder do aprendizado entre territórios. Ela relatou como a transição de pesca predatória para turismo sustentável em Raja Ampat gerou impactos regionais e internacionais. “Líderes das Ilhas do Pacífico viajaram até Raja Ampat para aprender sobre essa transformação da pesca para o turismo sustentável”, disse, mostrando como o intercâmbio entre povos acelera a busca por soluções.
Para Irmadhiany, tecnologia e tradição caminham juntas. “Quando unimos conhecimento tradicional e inovação, criamos comunidades mais resilientes. A tecnologia não substitui as pessoas, ela amplia sua capacidade de proteger florestas e transformar economias locais.”
Representante da Rede de Mulheres Africanas para Gestão Comunitária de Florestas (REFACOF), Cécile Bibiane Ndjebet reforçou que investir em pessoas é decisivo para garantir florestas vivas: “A destruição ambiental não nasce da ignorância, mas da pobreza. Fortalecer a economia local é o caminho para proteger a natureza e garantir direitos.”
Representando o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Ivanildo Gama trouxe a força cultural das populações tradicionais e defendeu a regularização fundiária como base de uma bioeconomia justa. “Nós não somos donos da terra nem da natureza - somos parte do ciclo da vida. A floresta não é capital: é casa, é mãe, é cultura.”
Ele lembrou que os territórios coletivos - extrativistas, indígenas e quilombolas - já somam cerca de 70 milhões de hectares no Brasil e representam um modelo “revolucionário” que alia conservação e modo de vida. “A Amazônia já viveu ciclos predatórios da borracha, da madeira e do palmito, que fracassaram. A bioeconomia precisa respeitar o ciclo da vida, não impor monoculturas de mercado.”
Próximos passos: uma bioeconomia global inclusiva
Durante o evento, foi reforçada a necessidade de que o BioeconomyChallenge avance na consolidação de indicadores, políticas e mecanismos financeiros que valorizem modelos sociobioeconômicos já existentes nos territórios.
Entre as prioridades levantadas estão: a segurança da posse da terra e governança comunitária; a ampliação de cadeias de valor sustentáveis e regenerativas; as parcerias multirregionais para intercâmbio de conhecimento; a integração entre princípios socioculturais e instrumentos de mercado; a participação efetiva de povos indígenas, quilombolas e comunidades locais na construção da agenda global.
O workshop encerrou com um chamado coletivo para que a COP30 marque uma virada na forma como o mundo enxerga a economia baseada na natureza - reconhecendo que as soluções já existem e nascem dos povos da floresta.
COP30
A Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP) é o principal espaço global de negociações e decisões sobre o clima. O evento reúne líderes de governos, empresas, sociedade civil e comunidades locais para definir metas e estratégias de adaptação e mitigação climática,
Realizada anualmente, em 2025 a conferência chega à sua 30ª edição - a COP30 -,que ocorre em Belém do Pará, no coração da Amazônia brasileira, de 10 a 21 de novembro. O evento marca uma década do Acordo de Paris e o ponto médio tanto da Década da Restauração de Ecossistemas (2021–2030) quanto da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
A Conservação Internacional (CI-Brasil) está amplamente envolvida em discussões estratégicas da COP30 e participará de mais de 60 eventos relacionados à proteção, manejo e restauração de ecossistemas para o bem-estar das pessoas, buscando consolidar as Soluções Baseadas na Natureza (SBN) como eixo central das ações de mitigação e adaptação às crises climática e da biodiversidade.
