[CI-Brasil no Organic Festival] Pesca sustentável, gastronomia e conservação marinha foram temas de debate no Organic Festival Trancoso

Mesa realizada na Casa Conservação Internacional discutiu como escolhas alimentares, turismo e cadeias produtivas podem contribuir para a conservação dos oceanos e o fortalecimento das comunidades costeiras

7 min

September 25, 2026

Trancoso (BA), 25 de setembro de 2026 – Como transformar escolhas alimentares em ferramentas de conservação? Essa foi uma das reflexões centrais da mesa “Pesca: Sabores do Oceano Vivo”, realizada nesta sexta-feira (25) na Casa Conservação Internacional durante o Organic Festival Trancoso 2026. O encontro reuniu Tatiana Souza, diretora de Desenvolvimento e Comunicação da Conservação Internacional (CI-Brasil); Kaywa Hilton, chef e fundador dos restaurantes Boia e Maré; e Marcel Leite, empreendedor, gestor do Capim Santo Trancoso e idealizador do restaurante Almar Trancoso, para discutir caminhos capazes de conectar pesca sustentável, geração de renda, desenvolvimento territorial e conservação da biodiversidade marinha.

A conversa partiu do reconhecimento de que a pesca vai muito além da produção de alimentos. Em diferentes comunidades costeiras, ela sustenta economias locais, preserva conhecimentos tradicionais e contribui para a identidade cultural dos territórios. Ao mesmo tempo, os participantes destacaram a importância de construir modelos capazes de garantir a saúde dos ecossistemas marinhos e a disponibilidade de recursos pesqueiros para as próximas gerações.

O oceano nas escolhas do dia a dia

Durante a conversa, Tatiana Souza, ao abrir e moderar a mesa, trouxe a importância de "conectar práticas de conservação, turismo e gastronomia para ampliar a diversidade de espécies consumidas e reduzir a pressão sobre espécies ameaçadas".

Ao citar o caso do budião-azul (Scarus trispinosus), espécie importante para a manutenção dos recifes, a diretora da CI-Brasil salientou que chefs, restaurantes e consumidores podem contribuir para desafogar estoques sob maior pressão ao diversificar as opções presentes nos cardápios.

Outro destaque no debate foi a necessidade de aproximar consumidores, produtores e comunidades costeiras. Ao compartilhar a experiência do projeto Almar, Marcel Leite contou que a iniciativa surgiu para fortalecera essência do território frente às transformações sofridas ao longo dos anos.

“O Almar vem com esse olhar de provocação para entender para onde Trancoso está indo com a sua essência. E essa essência é a vila de pescadores e agricultores de subsistência que se encontravam no Quadrado com suas mercadorias”, afirmou. Segundo Leite, fortalecer a conexão entre os negócios locais e os produtores do território é uma forma de preservar a identidade que tornou Trancoso um destino reconhecido nacional e internacionalmente.

O especialista também chamou atenção para a distância crescente entre parte do setor turístico e as cadeias produtivas locais. “Quase todos os restaurantes de Trancoso trabalham com peixes congelados de fora da região, pois hoje é difícil mapear os pescadores locais para alimentar esse crescimento do turismo. Quando abrimos um novo empreendimento não podemos fechar os olhos para isso”.

A conversa também trouxe reflexões sobre os desafios e oportunidades de ampliar o uso de pescado fresco local em destinos turísticos. Kaywa Hilton contou como a própria trajetória profissional foi influenciada pela ideia de que era necessário construir relações mais próximas com as comunidades pesqueiras. “O peixe entrou na minha vida justamente por perceber que eu precisava fazer algo com as pessoas da pesca”, comentou.

Ao falar sobre o abastecimento dos restaurantes, o chef afirmou que, embora trabalhar com pescado fresco local exija adaptações operacionais, os desafios não são maiores do que os enfrentados por cadeias de suprimento já tradicionais do mercado. “A operação de trabalhar com peixe fresco é complexa, mas é possível iniciar.mas o negócio é só começar. O uso do salmão, por exemplo, também exige uma logística complexa. Eu não consigo ver pontos negativos, como cliente, chef ou turista, em trabalhar com peixes locais, apenas positivos", afirmou o chef do Boia Restaurante.

Para ele, fortalecer cadeias produtivas ligadas ao território beneficia toda a rede envolvida na atividade. “Trabalhar com o local é melhor para a sua empresa, dá força para os pescadores e para a natureza.”

Novas oportunidades para comunidades costeiras

A diversificação das atividades econômicas ligadas ao oceano também apareceu como um caminho para fortalecer a resiliência das comunidades costeiras. Entre os exemplos apresentados esteve a algicultura familiar, apontada como uma alternativa econômica de baixa pegada de carbono capaz de complementar a renda de famílias pesqueiras e reduzir a pressão sobre recursos marinhos mais vulneráveis.

Tatiana Souza destacou iniciativas apoiadas pela CI-Brasil junto a pescadores, marisqueiras e produtores da região e mencionou o papel da gastronomia na valorização dessas novas cadeias produtivas.

Um oceano vivo depende de escolhas coletivas

Ao final do encontro, os participantes convergiram em uma mensagem comum: o futuro dos oceanos depende da ação compartilhada entre pescadores, consumidores, cozinheiros, empreendedores, organizações e governos.

Ao refletir sobre o papel dos restaurantes e dos consumidores, Marcel Leite resumiu a discussão em três elementos centrais: conhecimento, escolhas e responsabilidade. “O problema não é o consumo. É como consumimos”, disse. Para o chef, compreender a origem dos produtos e seus impactos é o primeiro passo para transformar hábitos.

“O maior ingrediente que a gente pode ter é o conhecimento. Quando entendemos os produtos, de onde eles vêm e quais impactos geram, conseguimos fazer melhores escolhas.”

Tatiana Souza destacou que conservação e sucesso econômico não devem ser vistos como objetivos incompatíveis. “Conversando com vocês, eu entendo que é uma escolha fazer escolhas que causam impacto positivo e ainda ter restaurantes bem-sucedidos. E isso independe da escala, seja do pequeno ao grande, todos podem inserir práticas sustentáveis: da pesca artesanal passando para a industrial até à mesa”.

CASA CONSERVAÇÃO INTERNACIONAL

Essa e outras mesas acontecem na Casa Conservação Internacional, em pleno quadrado de Trancoso. Parceira Estratégia do Organic Festival Trancoso desde 2019, a CI-Brasil mantém a casa como um palco para rodas de conversa, aulas e ativações abertas ao público durante todos os dias da programação, de maneira 100% gratuita. Confira a agenda aqui.