El Niño na Amazônia: impactos esperados e caminhos para a restauração

Especialista da Conservação Internacional avalia os efeitos do fenômeno e explica como adaptar ações de restauração para fortalecer a floresta tropical e as pessoas que nela vivem.

15 min

September 17, 2026

O El Niño deste ano avança para uma fase de maior intensidade. O boletim mais recente do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por órgãos federais de monitoramento climático, aponta probabilidade superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre setembro e novembro. Para a Amazônia Legal, as previsões indicam chuvas abaixo da média em diferentes áreas e temperaturas acima da média em toda a região.

A combinação merece atenção justamente durante a transição entre o período seco e o chuvoso. Menos chuva, temperaturas mais elevadas e um eventual atraso no início da estação chuvosa podem ampliar o déficit de água e criar condições mais favoráveis à propagação de incêndios. E os efeitos podem ir além de 2026: uma análise dos oito eventos de El Niño registrados desde 2002 identificou uma relação entre fenômenos mais intensos e maiores perdas de floresta primária pelo fogo no ano seguinte.

Ainda assim, os impactos do El Niño variam de acordo com as características específicas dos diferentes territórios amazônicos. Por isso, as respostas também precisam considerar as particularidades de cada área.

A Conservação Internacional (CI-Brasil) conversou com Viviane Figueiredo, gerente de restauração de paisagens da Amazônia, para entender o que o fenômeno representa para a floresta, as pessoas, e como Soluções Baseadas na Natureza (SBN) - especialmente a restauração de paisagens- podem incorporar a adaptação climática em um cenário de eventos extremos mais intensos.

O que é o El Niño e por que ele importa para a Amazônia?

Viviane Figueiredo: O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico na região equatorial. Essa mudança altera a circulação atmosférica e, consequentemente, os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.

Na Amazônia brasileira, especialmente nas porções norte e leste, o fenômeno costuma estar associado a períodos mais secos e temperaturas mais elevadas. Isso pode reduzir a umidade do solo, baixar os níveis dos rios e aumentar o estresse hídrico da vegetação.

É importante deixar claro que o El Niño não provoca diretamente os incêndios na Amazônia. A floresta tropical úmida não é adaptada à ocorrência frequente de fogo. O que o calor e a falta de chuva fazem é deixar a vegetação mais seca e inflamável. Assim, um fogo iniciado pela ação humana encontra condições muito mais favoráveis para se espalhar e atingir a floresta.

E existe outro ponto importante neste momento: o risco não termina necessariamente quando o El Niño enfraquece. Eventos anteriores indicam que parte dos impactos pode aparecer na estação seca seguinte, porque a seca deixa mais material combustível disponível na paisagem. Por isso, é preciso olhar não apenas para 2026, mas também para 2027.

Toda a Amazônia responde da mesma forma?

VF: Não. Essa é uma mensagem fundamental. Estamos falando de um fenômeno global, mas seus efeitos são muito regionalizados.

A resposta de cada território depende da intensidade do El Niño, mas também de outros fatores climáticos, como as condições do Atlântico Tropical, e das características da própria paisagem: tipo de solo, cobertura vegetal, disponibilidade de água e histórico de desmatamento e degradação.

Duas áreas da Amazônia podem estar submetidas ao mesmo El Niño e apresentar níveis bastante diferentes de déficit hídrico e vulnerabilidade ao fogo. A ciência também vem mostrando essas diferenças. Pesquisas indicam, por exemplo, que características como a fertilidade do solo e a profundidade do lençol freático influenciam a resposta das florestas amazônicas à seca

Isso tem uma implicação direta para a floresta: não existe uma receita única para a Amazônia. É preciso compreender as condições de cada território para definir espécies, técnicas, calendário de implantação e manejo.

O que períodos mais quentes e secos representam para a floresta e para quem vive nela?

VF: Mais calor e menos água significam maior estresse tanto para os ecossistemas quanto para as pessoas.

Para a floresta, podem representar menor disponibilidade de água no solo, redução no crescimento das plantas, aumento da mortalidade de árvores e maior vulnerabilidade ao fogo. Mas os impactos não param na biodiversidade.

A disponibilidade de água está ligada à agricultura, à pesca, ao transporte, à qualidade do ar e à segurança alimentar de comunidades rurais, povos indígenas e comunidades tradicionais. Por isso, não faz sentido pensar a adaptação climática da Amazônia apenas do ponto de vista ecológico. A resiliência da floresta está conectada à resiliência das pessoas que vivem e manejam esses territórios.

Existem, inclusive, aprendizados importantes em outras regiões do Brasil. Tecnologias sociais relativamente simples podem ajudar famílias e comunidades a captar, armazenar e aproveitar melhor a água durante períodos críticos. Por exemplo, parceiros da CI-Brasil, como o Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), já trabalham com reúso de águas cinzas para irrigação de sistemas agroflorestais e estruturas que ajudam a reter água no solo.

Conhecimentos tradicionais e a ciência podem atuar de forma complementar para mitigar esse cenário?

VF: Na Amazônia, a complementaridade entre diferentes sistemas de conhecimento é fundamental.

Povos indígenas e comunidades tradicionais acumulam, ao longo de gerações, conhecimentos sobre ciclos de chuva e seca, comportamento dos rios, solos, espécies, produção de sementes, sistemas agrícolas e manejo do fogo. É um conhecimento profundamente ligado a cada território.

A ciência traz ferramentas complementares, como séries históricas do clima, experimentos ecológicos, imagens de satélite, sensoriamento remoto, modelagem climática e monitoramento da vegetação em grandes áreas.

Um satélite pode mostrar que a umidade da vegetação está diminuindo em determinada paisagem. Quem vive naquele território pode perceber como uma nascente, o solo, determinadas espécies ou a disponibilidade de alimentos estão respondendo à mesma mudança.

Quando essas formas de conhecimento dialogam de maneira respeitosa, aumentam as informações disponíveis para a tomada de decisão e ajudam a construir respostas mais adequadas às particularidades de cada lugar.

Como o El Niño pode afetar o cultivo de espécies na Amazônia, como em produções agrícolas e projetos de restauração?

VF: Agricultura e restauração têm uma coisa importante em comum: as duas dependem muito do momento, da quantidade e da distribuição da chuva.

Os primeiros meses depois do plantio são especialmente críticos. Uma muda recém-plantada ainda tem um sistema de raízes pequeno. Se enfrenta uma estiagem intensa nesse período, pode não conseguir acessar água suficiente para sobreviver.

Por isso, em um contexto de maior variabilidade climática, o calendário de cultivo não pode ser tratado como algo fixo. A janela de plantio, o preparo do solo, a cobertura, as espécies escolhidas e o manejo depois da implantação precisam responder às condições daquele território e daquele ano.

A restauração é uma das Soluções Baseadas na Natureza que contribuem para enfrentar a crise climática e a crise da biodiversidade, mas a própria restauração também precisa ser adaptada às novas condições climáticas.

Algumas tecnologias desenvolvidas para a convivência com períodos de seca podem complementar esse trabalho. Técnicas de retenção e infiltração de água, cobertura do solo e reúso de água, por exemplo, podem ser combinadas com estratégias de restauração quando a disponibilidade hídrica se torna um fator limitante.

Diante da intensidade prevista para o fenômeno, o que precisa ser feito agora?

VF: As projeções exigem atenção, mas a resposta não é necessariamente inventar uma metodologia totalmente nova. O mais importante é aumentar a capacidade de adaptação das ações que já estão em andamento.

Isso significa incorporar informações climáticas de maneira mais sistemática ao planejamento: revisar janelas de plantio quando necessário, avaliar a umidade do solo antes das intervenções, selecionar espécies e procedências adequadas ao contexto local, acompanhar mais de perto áreas recém-restauradas e estar preparado para realizar manutenção ou replantio.

Também é preciso reforçar a prevenção ao fogo nas regiões de maior risco e utilizar o próprio manejo da área para reduzir o estresse das plantas, inclusive mantendo materiais do ecossistema, como folhas e troncos, quando adequado, para conservar umidade e diminuir a exposição das mudas.

E precisamos continuar olhando para a paisagem depois que o El Niño perder força. Os efeitos podem aparecer com atraso, inclusive na estação seca seguinte. Por isso, monitoramento e sistemas de alerta precoce são tão importantes.

Como escolher espécies e estratégias capazes de lidar melhor com essas condições?

VF: Não é tão simples quanto criar uma lista de “espécies resistentes à seca”. É preciso entender como diferentes espécies usam a água, a profundidade e a arquitetura de suas raízes, sua velocidade de crescimento, a densidade da madeira e a tolerância a períodos de déficit hídrico.

A origem das sementes também importa: populações de uma mesma espécie, provenientes de regiões diferentes, podem apresentar respostas distintas às condições ambientais. Um estudo recente propõe justamente uma forma de orientar a escolha da procedência das sementes considerando não apenas o clima atual, mas também as condições climáticas projetadas para o futuro.

E diversidade é parte da estratégia. Quanto mais variadas forem as características e formas de resposta das espécies, menor a chance de um único evento extremo afetar toda a comunidade vegetal da mesma maneira. Uma pesquisa publicada em 2025 na Nature Communications reforça essa relação. Em simulações de secas severas na Amazônia, florestas com maior diversidade de características relacionadas ao uso da água apresentaram maior resistência à perda de biomassa.

Também não existe apenas uma técnica de restauração. Dependendo da degradação da área e de sua capacidade de se recuperar, podem ser utilizadas regeneração natural assistida, plantio de mudas, semeadura direta, enriquecimento ou sistemas agroflorestais.

Adaptar a restauração, portanto, não significa apenas trocar espécies. Significa olhar para o sistema inteiro e acompanhar sua resposta ao longo do tempo. Um projeto que dura cinco, 10 ou 20 anos não pode partir do pressuposto de que as condições climáticas permanecerão iguais durante todo esse período.

Como preparar a Amazônia para novos eventos extremos?

VF: A resposta começa por olhar para a paisagem como um todo.

As Soluções Baseadas na Natureza, como a proteção, o manejo sustentável e a restauração da floresta, têm um papel importante tanto na mitigação quanto na adaptação climática. Ao mesmo tempo em que contribuem para conservar e recuperar estoques de carbono e biodiversidade, podem ampliar a capacidade das paisagens de lidar com calor, seca e alterações no regime de chuvas.

Para colher esses benefícios, não basta proteger ou restaurar áreas isoladas: é preciso conectar fragmentos florestais, recuperar funções ecológicas e criar condições para que esses resultados se mantenham ao longo do tempo. Mas isso também depende das pessoas e das estruturas que tornam essas soluções possíveis.

Uma das frentes de atuação da CI-Brasil e de seus parceiros é fortalecer a cadeia da restauração, apoiando viveiros e redes de sementes e ampliando conhecimentos de coletores, viveiristas, técnicos e organizações locais. Uma cadeia estruturada aumenta a disponibilidade e a diversidade de sementes e mudas e permite responder melhor às necessidades de cada território.

E isso exige que as próprias estratégias sejam adaptáveis. As técnicas de restauração precisam ser escolhidas de acordo com as condições de degradação, ambientais e socioeconômicas de cada área, enquanto o monitoramento permite acompanhar como a vegetação está respondendo e fazer ajustes quando necessário.

A conexão e troca entre organizações também é importante. Experiências desenvolvidas em um lugar podem gerar aprendizados úteis para outros, desde que sejam personalizadas às condições locais. A CI-Brasil contribui para sistematizar esses conhecimentos em materiais, guias e outras ferramentas articuladas com parceiros da restauração. Redes como a Aliança pela Restauração na Amazônia ajudam a conectar diferentes atores e fortalecer essa capacidade de resposta.

Em um cenário de maior variabilidade climática, essa capacidade de aprender coletivamente e ajustar as estratégias com mais rapidez também é uma forma de aprimorar a resiliência da paisagem. No fim, a resiliência não depende apenas da floresta. Depende também da capacidade das comunidades, organizações e instituições que atuam naquele território de aprender, manejar e adaptar suas estratégias quando as condições mudam.

Não conseguimos impedir que um fenômeno climático como o El Niño aconteça. Mas podemos decidir em que condições a floresta amazônica e suas comunidades vão enfrentá-lo. Proteger áreas com vegetação remanescente, restaurar áreas estratégicas, trabalhar com diversidade de espécies e métodos, fortalecer cadeias locais e incorporar o monitoramento com adaptação ao longo de todo o processo são formas de, hoje, reduzir vulnerabilidades para amanhã. Porque a Amazônia é feita todos os dias.