Rio de Janeiro (RJ), 15 de maio de 2026 - Nas margens dos rios Purus e Ituxi, no sul do Amazonas, a conservação da biodiversidade começa com o olhar atento de quem vive no território. É ali, nas praias, campinas e barrancos usados como áreas de desova, que comunitários identificam ninhos, protegem ovos e acompanham o nascimento de quelônios - grupo de répteis caracterizado pela presença de uma carapaça rígida que protege o corpo.
Em 2025, esse trabalho alcançou resultados expressivos nas Reservas Extrativistas (RESEX) Médio Purus e Ituxi: foram monitoradas 41,1 mil covas e devolvidos aos rios mais de 2,5 milhões de filhotes de tartaruga-da-amazônia, tracajá e iaçá, espécies fundamentais para os ecossistemas aquáticos amazônicos e para os modos de vida locais. A iniciativa é apoiada pela Conservação Internacional (CI-Brasil), por meio do Programa Paisagens Sustentáveis da Amazônia (ASL Brasil), pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
A estratégia combina conhecimento local, formação de monitores comunitários e apoio técnico, logístico, financeiro e material para a gestão do monitoramento realizado pelas comunidades, em articulação com o ICMBio. Os monitores são moradores das próprias reservas e atuam voluntariamente na vigilância dos tabuleiros – áreas de desova localizadas ao longo dos rios.
"Os resultados demonstram a importância de uma conservação construída junto às pessoas que vivem no território. Ao apoiar a formação de monitores e a gestão comunitária dos tabuleiros, o ASL Brasil contribui para a proteção de espécies vulneráveis, para a produção de dados essenciais ao manejo e para o fortalecimento da participação das comunidades na conservação da Amazônia”, afirma Leuzabeth Silva, gerente de projetos da CI-Brasil.
O caso é um exemplo prático das Soluções Baseadas na Natureza (SBN) para enfrentar os impactos da crise climática e da crise da biodiversidade - quando conectadas às populações locais. Para os próximos ciclos, está prevista a continuidade do apoio logístico e institucional às comunidades monitoras, com novas capacitações, padronização da coleta de dados, uso de ferramentas digitais e ampliação do acompanhamento técnico e da fiscalização nos tabuleiros.
Milhões de filhotes protegidos
Na Reserva Extrativista Médio Purus, o monitoramento comunitário abrangeu 13 tabuleiros. O trabalho resultou no registro de 40,8 mil covas e na soltura de 2,5 milhões de filhotes de tartaruga-da-amazônia, tracajá e iaçá. A tartaruga-da-amazônia concentrou os maiores números, com 34,5 mil covas e 2,4 milhões de filhotes soltos. Também foram registrados 25,8 mil filhotes de tracajá e 44,3 mil filhotes de iaçá, reforçando a importância das praias de tabuleiro como áreas de reprodução e berçários naturais para a fauna amazônica.
Na Reserva Extrativista Ituxi, o monitoramento envolveu 11 tabuleiros e registrou 333 covas, 6,6 mil ovos e 6,7 mil filhotes soltos. A espécie com maior representatividade foi o tracajá, com 327 covas e 6,3 mil filhotes soltos. Também foram registrados filhotes de tartaruga-da-amazônia e iaçá.
Os dados foram coletados a partir das fichas preenchidas pelos monitores comunitários e validados em diálogo com os responsáveis locais e a equipe técnica do Núcleo de Gestão Integrada (NGI) Lábrea do ICMBio. Esse processo qualifica o acompanhamento das espécies e apoia decisões de manejo nas unidades de conservação.
Um ciclo de cuidado
O manejo dos quelônios começa na fase reprodutiva, quando as fêmeas buscam as praias para depositar seus ovos. Em condições naturais, eles eclodem entre 60 e 70 dias. Mas, mesmo quando chegam à água, poucos filhotes sobrevivem até a fase adulta: a cada mil, apenas um ou dois. Por isso, o monitoramento dos ninhos e a soltura orientada são decisivos para ampliar as chances de sobrevivência das espécies.
Nas RESEX, os ninhos são acompanhados pelos monitores comunitários ao longo do período reprodutivo, reduzindo riscos como a ação de predadores e interferências humanas. Após a eclosão, os filhotes são conduzidos em segurança para os rios.
O que poderia parecer uma ação simples é, na prática, uma rotina contínua de vigilância, cuidado e registro. Esse trabalho transforma o conhecimento tradicional das comunidades em uma ferramenta concreta e eficaz de conservação.
Espécies sob pressão
Na Amazônia, existem 21 espécies de quelônios em situação de vulnerabilidade, pressionadas principalmente pela caça predatória e pelo consumo de carne e ovos. No Amazonas, o consumo desses animais é proibido, exceto em situações de subsistência por populações locais. Em bares e restaurantes, só é permitido o consumo de animais criados em cativeiro. Esse cenário reforça a importância de ações contínuas de manejo e monitoramento, especialmente em áreas protegidas onde as comunidades desempenham papel decisivo na vigilância dos tabuleiros.
As três espécies monitoradas pelo ASL Brasil exigem atenção permanente. De acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o tracajá e o iaçá são classificados como vulneráveis, categoria que indica alto risco de extinção na natureza. Já a tartaruga-da-amazônia, maior quelônio de água doce da América do Sul e uma as espécies mais procuradas no comércio ilegal, aparece como quase ameaçada no sistema SALVE, do ICMBio.
Em cada ninho identificado, em cada filhote acompanhado e em cada soltura realizada, comunidades, órgãos públicos e organizações ajudam a manter viva uma relação histórica entre rios, espécies e pessoas - uma base essencial para conservar a Amazônia no presente e fortalecer caminhos de desenvolvimento compatíveis com a natureza.
SOBRE O PAISAGENS SUSTENTÁVEIS DA AMAZÔNIA (ASL BRASIL)
A Amazônia é essencial para a vida no mundo, mas sua paisagem está passando por mudanças que ameaçam seus ecossistemas.
Para reverter esse cenário e contribuir com sua conservação e restauração, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio da Secretaria de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais (SBio/MMA), coordena o Projeto Paisagens Sustentáveis da Amazônia (ASL Brasil), executado pela Conservação Internacional (CI-Brasil), pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV Europe), em parceria com Órgãos Estaduais de Meio Ambiente (OEMAs) e órgãos federais responsáveis pela gestão de áreas protegidas.
O ASL Brasil se insere no Programa Regional ASL, implementado pelo Banco Mundial (BM) e financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), que inclui projetos no Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname. Juntos, essas ações visam melhorar a gestão integrada da paisagem na Amazônia.
