Pesca artesanal e resiliência: pescadoras de Belmonte enfrentam desafios da crise climática

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October 17, 2024

Todos os anos, em meados de agosto, as pescadoras de Belmonte, na Reserva Extrativista Marinha de Canavieiras, litoral sul da Bahia, se preparam para a aguardada temporada de pescadinha, um dos peixes mais requisitados pelos restaurantes e hotéis da região. Este ano, porém, o cenário é desafiador: já falta pescada nos cardápios. "Estamos em outubro e nossa pesca está muito fraca. O mar está grosso, o vento soprando de leste, e nossas embarcações não conseguem sair", relata Pedrina Rodrigues, secretária da Associação das Marisqueiras e Pescadoras de Belmonte (AMPB).

Pesquisas recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) revelam que os oceanos já absorveram mais de 90% do calor gerado pelo aquecimento global nos últimos 50 anos. O novo relatório “Riscos de Mudanças Climáticas para Ecossistemas Marinhos e Pescarias”, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) prevê que, se continuarmos aumentando a temperatura média global, até o final do século, o volume de recursos pesqueiros no oceano pode reduzir em 30% ou mais, em 48 países.

A pesca artesanal tem um papel essencial para diversas comunidades tradicionais brasileiras, sendo uma atividade enraizada na preservação de culturas e modos de vida que atravessam gerações. Mais do que abastecer moradores e turistas com pescado e frutos do mar frescos, ela sustenta tradições ancestrais e fortalece a economia local, tornando-se aliada do turismo responsável. Mas esse patrimônio cultural e econômico está seriamente ameaçado pelas consequências das mudanças climáticas e de outras intervenções humanas.

Nos últimos anos, a Reserva Extrativista Marinha de Canavieiras, que abrange cerca de dez mil hectares de manguezais e estuários, essencial para a subsistência das comunidades locais, tem sofrido com uma série de problemas: enchentes, derramamento de petróleo, assoreamento do Rio Jequitinhonha e, sobretudo, os efeitos da crise climática. "Os siris, que chamamos de cavaquinha, desapareceram da nossa região. Houve uma grande mortandade de ostras e o mexilhão só está começando a voltar agora. O assoreamento do rio reduziu muito as espécies de peixes, principalmente o robalo", conta Pedrina, filha de pescadores e marisqueiras, que testemunha essas transformações de perto ao longo dos anos. "O tempo é nosso aliado e com o tempo ruim, não conseguimos trabalhar. Nós dependemos da natureza. Todos nós somos natureza", reflete a pescadora.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), “pescadores de pequena escala são particularmente vulneráveis ​​às mudanças climáticas, devido à sua localização geográfica e sua situação de pobreza. Por estarem localizadas na costa, as comunidades pesqueiras estão expostas a eventos extremos relacionados ao clima e riscos naturais, como furacões, ciclones, elevação do nível do mar, acidificação do oceano, inundações e erosão costeira”.

Quando as pescadoras são mulheres, os desafios se intensificam. Um relatório do Women in Finance Climate Action Group revela que 8 em cada 10 pessoas deslocadas pelas mudanças climáticas são mulheres. "Nós, mulheres, temos que cuidar da casa, das crianças, e muitas ainda querem estudar. Não podemos ir longe para pescar", explica Pedrina. "Antes, conseguíamos trabalhar com qualquer maré, alta ou baixa. Agora, com o assoreamento do rio, isso se tornou impossível".

Apesar do cenário desafiador, a força e resiliência mantêm as pescadoras da Associação das Marisqueiras e Pescadoras de Belmonte firmes, sempre inovando e se adaptando. Em 2019, elas deram um passo importante ao fundar a Sustentamar, uma unidade de beneficiamento de pescado que se tornou a realização de um sonho e símbolo de superação.

"A cada dia, seguimos nos reinventando", afirma Pedrina. "Deus nos deu sabedoria e a unidade de beneficiamento nos permite explorar novas maneiras de sustentar nosso trabalho. Quando os peixes são escassos, nós aproveitamos para produzir subprodutos como bolinhos, hambúrgueres e pratos típicos. Além disso, começamos a promover vivências para conscientizar as pessoas sobre a importância da natureza para os povos tradicionais e como somos os primeiros a sentir os impactos da sua degradação". As pescadoras e marisqueiras de Belmonte se tornaram importantes guardiãs do conhecimento local e são essenciais para a preservação dos ecossistemas costeiros no litoral sul da Bahia.