Rodovia da Amazônia pode se tornar laboratório de adaptação climática para Infraestrutura Verde-Cinza, sugere estudo lançado na COP30

Proposta apresentada pela Conservação Internacional prevê restaurar 363,28 hectares de manguezais e remover mais de 409 mil toneladas de CO₂ até 2050, integrando engenharia e Soluções Baseadas na Natureza para adaptação climática no Pará.

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November 18, 2025

Belém (PA), 18 de novembro de 2025 — Um estudo técnico lançado pela Conservação Internacional (CI-Brasil) e parceiros durante a COP30 propõe a requalificação da Rodovia PA-458, que conecta o município de Bragança à Vila de Ajuruteua, no Pará, como o primeiro grande laboratório brasileiro de Infraestrutura Verde-Cinza (IVC) na Amazônia Costeira. A iniciativa integra engenharia, ciência climática e Soluções Baseadas na Natureza (SBN) para reduzir riscos, restaurar manguezais e fortalecer a adaptação à crise climática na costa Norte do país.

A pesquisa revela que as intervenções de IVC ao longo de oito quilômetros da PA-458 permitirão recuperar 363,28 hectares de manguezais, restabelecer a circulação natural das marés e remover mais de 106 mil toneladas de CO₂ até 2050 apenas na área diretamente impactada. A implementação de IVC pode beneficiar cerca de 123 mil pessoas que dependem da estrada para se locomover, ao passo que atualmente, em períodos de maré alta, trechos são bloqueados devido a alagamentos promovendo isolamento e insegurança no trânsito.

Considerando zonas adjacentes degradadas por turismo desordenado, queimadas e ocupação urbana, o potencial total de remoção supera 409 mil toneladas de CO₂, reforçando o papel da Amazônia costeira como um dos maiores reservatórios de carbono azul do planeta. Além dos benefícios climáticos, as soluções híbridas podem gerar até 30% de economia nos custos de manutenção da estrada, ampliar sua vida útil e fortalecer a mobilidade e a segurança das comunidades que dependem da via para acessar mercados, escolas, serviços e atividades de subsistência, como a pesca artesanal e a coleta de caranguejos.

“O potencial de requalificação da PA-458 mostra que o futuro da infraestrutura na Amazônia começa quando a engenharia trabalha com a natureza. É um projeto que traduz na prática o que defendemos há anos: soluções baseadas na ciência, que restauram ecossistemas, fortalecem municípios e criam novas oportunidades para o desenvolvimento climático do Brasil. Estamos inaugurando um novo padrão em que cada estrada pode ser também um corredor de resiliência, carbono azul e prosperidade local”, afirma Renan Alves, gerente de Carbono Azul da Conservação Internacional. “Uma solução de nova geração: quando a engenharia encontra o carbono azul”, sintetiza.

Construída entre as décadas de 1970 e 1980 sob um modelo de engenharia que desconsiderava a dinâmica ecológica dos manguezais, a estrada bloqueou fluxos naturais de maré, degradou extensas áreas de mangue e intensificou alagamentos que hoje afetam milhares de famílias. A proposta de requalificação marca uma mudança de paradigma: reprojetar a rodovia para operar em parceria com a natureza - e não contra ela.

A pesquisa foi elaborada em cooperação com o Departamento de Oceano e Gestão Costeira Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Laboratório de Ecologia e Manguezal (LAMA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Prefeitura de Bragança, as Secretarias de Meio Ambiente do Pará (SEMAS) e do Amapá (SEMA), Meandros Empresa Júnior da Universidade Federal do Pará (UFPA); Associação Sarambuí/PA; MAFE Engenharia; ENVEX Engenharia e Consultoria; Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM) e entidades privadas.

A publicação está disponível na íntegra neste link.

Nova fronteira de financiamento climático

A experiência da PA-458 inaugura uma categoria emergente de projetos com forte potencial de financiamento climático internacional, incluindo fundos voltados à adaptação baseada na natureza, infraestrutura resiliente, carbono azul e transição ecológica.

Segundo o Banco Mundial, cada dólar investido em adaptação climática pode gerar até quatro dólares em benefícios líquidos, indicador que reforça o valor econômico da integração entre engenharia e ecossistemas.

As intervenções previstas na PA-458 incluem:

  • instalação de passagens hidráulicas;
  • abertura de microcanais vegetados;
  • dragagem controlada;
  • restauração ativa de manguezais, com plantio assistido e monitoramento comunitário.

Cada técnica foi desenhada para restabelecer o fluxo natural da água e dos sedimentos, promover qualidade de vida e acesso a serviços pela população local, reduzir alagamentos e recuperar a funcionalidade ecológica de um dos ecossistemas mais importantes do planeta.

Alinhamento às metas nacionais

A iniciativa está alinhada às metas do Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais (ProManguezal) e Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, ao Programa Cidades Verdes e Resilientes (PCVR) e ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no eixo Cidades Sustentáveis e Resilientes, que incorporam prevenção de riscos, infraestrutura sustentável e resiliência urbana como pilares da política climática nacional.

“A requalificação da PA-458 representa mais que a recuperação de uma estrada: inaugura um novo padrão de desenvolvimento para o Brasil, em que obras públicas também são obras ecológicas, sociais e climáticas, preparadas para um mundo em aquecimento e para um litoral sob pressão”, conclui Renan.