Estudo científico aponta avanço da restauração na Mata Atlântica, mas alerta para a importância de proteger florestas jovens

Com participação da Conservação Internacional (CI-Brasil), artigo publicado em revista internacional revela recuperação de 1,67 milhão de hectares em uma década e reforça a necessidade de políticas para garantir a permanência das áreas restauradas.

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Plantio no Parque Nacional do Pau Brasil, em Porto Seguro (BA)

March 3, 2026

Rio de Janeiro (RJ), 03 de março de 2026 — Um estudo publicado na revista científica internacional Perspectives in Ecology and Conservation (PECON) revela que 1,67 milhão de hectares de vegetação nativa foram recuperados na Mata Atlântica entre 2011 e 2021. Apesar do avanço, os dados trazem um alerta: cerca de 568 mil hectares dessas áreas não persistiram até 2023, evidenciando a necessidade de fortalecer mecanismos para garantir a permanência das florestas em regeneração.

O estudo reuniu 16 pesquisadores de 14 instituições, incluindo universidades, organizações da sociedade civil e coletivos de restauração. Todos integram a Força-Tarefa Geoespacial do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, um coletivo com mais de 360 organizações voltado a impulsionar a recuperação do bioma. Entre os autores está Bruno Coutinho, diretor do Laboratório de Inovação e Ciências para Conservação da Conservação Internacional (CI-Brasil).

As análises, baseadas em dados do MapBiomas, indicam que a maior parte da recuperação ocorreu por regeneração natural - processo em que a própria floresta se recompõe com apoio de fatores como a dispersão de sementes por aves e mamíferos. Essa dinâmica é considerada uma aliada estratégica da restauração, por permitir ganhos em escala com menor custo e alta eficiência ecológica.

“Os resultados mostram que o Brasil é plenamente capaz de implementar a restauração em larga escala, especialmente quando usa a natureza como parceira. Ao mesmo tempo, evidenciam o desafio de garantir a permanência dessas jovens florestas”, afirma Bruno Coutinho. “Precisamos de políticas consistentes de proteção, incentivos econômicos eficientes e modelos de monitoramento adequados para avançar de forma sólida rumo à meta nacional de restaurar 12 milhões de hectares e, assim, transformar esses números em benefícios duradouros para o clima, a biodiversidade e as pessoas”, complementa.

No final do ano passado, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) anunciou que o Brasil já conta com 3,4 milhões de hectares em processo de restauração - quase um terço da meta prevista no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Garantir a permanência dessas áreas foi apontado como um dos próximos passos essenciais para a agenda no país.

Restauração em escala, desafios e soluções para permanência

Os dados mostram que a regeneração ocorreu de forma mais expressiva nos estados de Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%). A maior parte da recuperação foi registrada em mosaicos de uso - áreas que combinam agricultura, pastagens e vegetação nativa - e em pastagens, reforçando o potencial de restaurar ecossistemas mesmo em paisagens produtivas. No entanto, a perda de parte significativa dessas áreas evidencia um desafio central: a falta de proteção.

Por isso, os autores destacam a importância de instrumentos como Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), fiscalização ambiental e políticas específicas para conservação da vegetação em restauração, permitindo a plena consolidação dessas florestas e o cumprimento de seu papel na provisão de serviços ecossistêmicos como a regulação do clima, conservação da biodiversidade e abastecimento de água.

Um modelo para restauração em escala

Mesmo altamente fragmentada e sob forte pressão antrópica, a Mata Atlântica é um dos principais exemplos de restauração em larga escala no mundo. Os resultados mostram que é possível recuperar florestas mesmo em territórios intensamente ocupados, desde que haja integração entre ciência, políticas públicas e ação nos territórios.

Com a maior extensão de florestas tropicais do planeta, o Brasil tem um papel estratégico na agenda global de restauração - e experiências como essa reforçam o potencial do país em liderar Soluções Baseadas na Natureza (SBN) em escala.