Bruno Coutinho estava parado em uma estrada de terra, chorando em silêncio.
Como biólogo e geógrafo da Conservação Internacional, Coutinho passou a carreira desenhando e mapeando paisagens em telas. Ele não esperava que um daqueles mapas o levasse às lágrimas.
A estrada sob seus pés, antes pixels em um monitor, agora era uma curva íngreme, acompanhando a depressão do rio abaixo. Ao seu redor, o Cerrado - uma combinação de savana e formações arbóreas no sudoeste do Brasil - estava retornando. O dossel se fechava lentamente, à medida que camadas resistentes e floridas de árvores e arbustos brotavam em meio ao antigo capim de pastagem.
Perto dali, Mark Wishnie, do BTG Pactual - a empresa brasileira de investimentos que havia construído tudo aquilo - o observava. “Todos nós já trabalhamos em projetos em que você tem uma ideia bonita”, disse Wishnie mais tarde. “Mas ela não necessariamente se concretiza exatamente como você imagina.”
Essa havia se concretizado.
Neste mês, o Timberland Investment Group do BTG Pactual (BTG Pactual TIG) encerrou a captação de seu fundo para novos investidores após garantir US$ 1,24 bilhão — capital que será direcionado à restauração e à proteção de terras degradadas no Brasil e no Uruguai, em conjunto com plantios florestais comerciais sustentáveis. O anúncio marca um ponto de virada para um projeto que, não muito tempo atrás, existia apenas como linhas em um mapa em um pequeno escritório em São Paulo.
“Eles pegaram o que planejamos em nosso pequeno escritório”, disse Coutinho, “e colocaram em campo.”
Há três anos, a Conservação Internacional apostou em uma ideia ousada: a de que trabalhar com o BTG Pactual TIG para plantar florestas comerciais poderia salvar um dos ecossistemas mais ameaçados do Brasil. Os críticos estavam prontos.
“Havia algum risco nessa relação para ambos os lados no início”, disse Wishnie.
Para a Conservação Internacional, o desafio era reputacional: a credibilidade da organização estava em jogo na aposta de que um investidor florestal com fins lucrativos poderia ser um parceiro genuíno para a natureza. Para o BTG Pactual TIG, era algo completamente diferente: abrir suas decisões de investimento a uma contribuição relevante de uma organização de conservação.
O que emergiu, em vez disso, foi confiança.

Meio a meio
O Cerrado, vasto mosaico de campos e formações savânicas que se estende por um quarto do Brasil, abriga cinco por cento das espécies do mundo. Mais da metade dele já desapareceu.
Hoje, estima-se que 60 milhões de hectares (600 mil quilômetros quadrados) de pastagens brasileiras estejam degradados — uma área equivalente a quase metade do tamanho do vizinho Peru. Florestas e savanas nativas foram sistematicamente removidas para dar lugar ao gado e à soja, tomadas por gramíneas invasoras e exauridas por décadas de sobrepastoreio severo.
Mas restaurar o Cerrado é caro. A restauração exige atuar em toda uma paisagem e ao longo de décadas: plantar as árvores certas nos lugares certos, trabalhar com comunidades locais, monitorar as condições para garantir que as mudas sobrevivam. Os custos reais podem chegar a milhares de dólares por hectare.
O alto custo da restauração reflete um desafio mais amplo: estima-se que exista uma lacuna anual de financiamento para a natureza. A filantropia, os governos e os organismos multilaterais não conseguem avançar rápido o suficiente para preenchê-la. Para a Conservação Internacional, fechar essa lacuna significa ir onde o dinheiro está.
Nas vastas extensões de solo erodido e exaurido, a Conservação Internacional viu uma oportunidade – capaz de injetar mais de US$ 1 bilhão em direção a esse objetivo. Isso significava trabalhar com um investidor florestal. O plano do BTG Pactual TIG era simples: substituir pastagens degradadas usadas para pecuária por 50% de eucalipto certificado como sustentável para produção madeireira e 50% de Cerrado nativo.

“É fácil fazer um julgamento apressado sobre plantar espécies não nativas em qualquer lugar fora de sua área de ocorrência”, disse Will Turner, cientista da Conservação Internacional. “Mas julgamentos apressados não são a forma como vamos resolver as mudanças climáticas e salvar a biodiversidade. Precisamos testar o que realmente funciona. Este é um compromisso sério para melhorar a forma como manejamos a natureza dentro de propriedades privadas.”
O projeto funciona com uma engrenagem financeira sofisticada.
Tanto a madeira quanto o ecossistema restaurado vão gerar créditos de carbono - certificados negociáveis que empresas compram para compensar uma parte de suas emissões de carbono. Créditos gerados por vegetações nativas restauradas alcançam um preço mais alto do que aqueles provenientes de uma plantação florestal, porque o carbono armazenado em uma floresta antiga e biodiversa é considerado mais permanente e mais valioso do ponto de vista ecológico do que o carbono armazenado em um cultivo de uma única espécie.
“As áreas de silvicultura crescem mais rapidamente e proporcionam a atividade econômica de longo prazo que mantém e protege a floresta restaurada no futuro”, disse Wishnie.
Ao combinar os dois, o BTG Pactual TIG construiu um sistema em que restaurar a natureza torna todo o portfólio mais valioso, atraindo o tipo de investidores institucionais grandes, capazes de financiar escala real - em velocidade acelerada.
O plantio do eucalipto avançou com precisão de linha de montagem, com trabalhadores distribuídos pela paisagem, depositando mudas idênticas em intervalos exatos. Graças a décadas de cultivo intencional, envolvendo a seleção cuidadosa de árvores para garantir uniformidade, crescimento rápido e madeira de excelente qualidade, as árvores estarão prontas para o corte em sete anos e, depois, serão replantadas - embora o TIG opere em um ciclo de cultivo de longa rotação, aguardando até 15 anos para colhê-las. Esses anos extras resultam em uma árvore maior, que não é apenas um produto mais versátil, mas também armazena mais carbono - tanto enquanto está viva quanto depois de cortada.
“O período prolongado de crescimento resulta em toras maiores, adequadas para produtos de madeira sólida, como móveis, que continuam armazenando carbono por muito mais tempo do que se as árvores fossem cortadas mais cedo e usadas para produtos de papel”, disse Wishnie.
Enquanto isso, o esforço de restauração avançou com igual vigor, orientado em cada etapa pela Conservação Internacional. De acordo com o Observatório da Restauração do Brasil - um programa que acompanha os esforços de restauração em todo o país - apenas 14 mil hectares haviam sido reportados como em restauração no estado de Mato Grosso do Sul. O BTG Pactual TIG e a Conservação Internacional já quase dobraram esse número em apenas dois anos.
“Estamos ajudando-os a recuperar 33 fazendas no Brasil, totalizando 80 mil hectares”, disse Coutinho. “E metade disso é conservação e restauração. É uma quantidade enorme de habitat sendo trazida de volta.”
À medida que a vegetação retornou, também retornou a fauna.

Armadilhas fotográficas instaladas nas áreas do projeto registraram onças-pintadas se deslocando pela savana - o terceiro maior felino do mundo, caminhando silenciosamente por um corredor ribeirinho que era pastagem de gado há apenas três anos. Lobos-guarás também apareceram, buscando alimentos nas bordas dos campos ao entardecer. Até agora, pesquisadores já identificaram mais de 1.000 espécies nas propriedades - incluindo três que estão globalmente ameaçadas: um bagre de água doce, uma águia-do-chaco e um coelho-rabo-de-algodão ameaçado de extinção, uma espécie esquiva que depende de cobertura florestal intacta.
Esse último avistamento fez Wishnie interromper a frase no meio quando o descreveu. “O que era um habitat inóspito para essa espécie”, disse ele, “agora é lar.”
O trabalho duro
Restaurar a natureza parece simples: deixe-a em paz e, com o tempo, ela retornará. Essa suposição muitas vezes está errada, especialmente em lugares como o Cerrado.
Entender o porquê começa debaixo da terra.
“O solo daqui é o mais antigo do Brasil”, disse Coutinho, “permanecendo praticamente intacto sobre uma das porções mais antigas e estáveis da crosta continental do planeta.”
Ao longo de éons, enquanto outras paisagens da Terra passavam por transformações - repetidamente remodeladas por atividade vulcânica, glaciação e deslocamentos tectônicos - os solos do Cerrado resistiram ao tempo em um único lugar, perdendo nutrientes lentamente. As plantas acima se adaptaram a isso - lançando raízes a mais de 10 metros de profundidade para acessar água e nutrientes muito abaixo da superfície.
Mas, com o início das técnicas agrícolas modernas, essas plantas nativas de raízes profundas foram substituídas, pouco a pouco, pela braquiária - uma gramínea africana introduzida décadas atrás para alimentar o gado. De raízes rasas e crescimento rápido, ela é o oposto de tudo o que evoluiu aqui. E, uma vez estabelecida, libera substâncias químicas no solo que impedem completamente a germinação de sementes nativas.
“As sementes de plantas nativas provavelmente estão dormentes no solo”, disse Coutinho, “incapazes de florescer até que o capim seja eliminado.”
Para entender exatamente com o que estavam trabalhando, o BTG Pactual TIG e a Conservação Internacional sobrevoaram cada hectare da área do projeto com drones equipados com sensores LiDAR, construindo um mapa com resolução subcentimétrica. Cada pixel foi classificado por altura e densidade da vegetação. Cada fragmento remanescente de vegetação nativa foi identificado. Cada trecho de pastagem tomado por braquiária foi mapeado e medido.
A partir desses mapas, cada hectare recebeu uma recomendação.
Onde as árvores nativas já haviam se estabelecido - especialmente ao longo dos corredores fluviais - a orientação era retirar o gado, prevenir incêndios florestais e dar um passo para trás. Em alguns lugares, isso funcionou de forma impressionante. “Há um ponto em que eu sempre paro quando visito a propriedade, bem na borda de um corredor ripário. Ele agora está mais ou menos na altura da cabeça. Aquilo era pastagem de gado em 2023”, disse Wishnie.

Mas nem todo hectare é assim.
Onde a braquiária ainda domina, o BTG Pactual TIG emprega controle preciso de plantas daninhas, mirando a gramínea invasora para dar às plantas nativas uma chance de competir. “A ideia é que esta seja uma intervenção única”, disse ele. “Depois disso, a vegetação nativa assume.”
E onde mudas jovens estão emergindo, mas enfrentam dificuldades, o BTG Pactual TIG trava uma batalha contra um inimigo pequeno e bem-organizado: as formigas-cortadeiras, insetos vorazes capazes de deixar trechos inteiros de vegetação completamente desfolhados em uma única noite. Nessas áreas, a equipe maneja as populações de formigas apenas pelo tempo necessário para dar à nova vegetação uma chance de se estabelecer. Quando a vegetação amadurece e as folhas se tornam mais resistentes, as formigas retomam o papel que desempenhariam em um ecossistema não perturbado.
E onde a terra está mais degradada - onde nem a regeneração natural nem a intervenção direcionada são suficientes - trabalhadores plantam mudas nativas manualmente, cultivadas a partir de sementes coletadas por membros de comunidades locais e cooperativas regionais de coleta de sementes nativas apoiadas pelo BTG Pactual TIG e fornecidas por um viveiro local.
“As lições aprendidas não param na cerca da propriedade”, disse Wishnie. “O que estamos provando no Cerrado - que isso pode funcionar, que pode ganhar escala, que pode se pagar - é aplicável em qualquer lugar onde as pessoas estejam dispostas a tentar.”
Para a Conservação Internacional, os aprendizados apontam para algo ainda maior: uma prática cada vez mais consolidada de trabalhar ao lado de investidores privados para garantir que o capital direcionado a ecossistemas nativos entreguem resultados reais para as pessoas e para a natureza — não apenas no papel, mas no território.
Ao menos em algumas pastagens antigas, desenhadas em um mapa em um pequeno escritório, a vegetação volta a florescer e a ecoar com o canto dos pássaros — um canto do Cerrado em recuperação.
